terça-feira, 13 de novembro de 2012

Conheci muito pouco de ti. Sei que o teu prato preferido era bife com batatas fritas, gostavas de vinho tinto, só andavas de saia, sentavas-te sempre na ponta do sofá, quase a cair, enquanto assistias à Fátima Lopes pensando que vias a Júlia Pinheiro. Lembro-me das Páscoas, sempre na tua casa, com ovos cozidos que o meu irmão fazia questão de partir na minha cabeça, azeitonas e salpicão. Pensar que era muito injusto as minhas primas e o meu irmão receberem os mesmos chocolates quando eu, além de neta, era também afilhada. Os gatos, às dezenas, que alimentavas todos os dias no quintal. Não eras uma mãe meiga e presente e, certamente, também não foste uma avó dedicada, daquelas que sentam os netos no colo, os convidam para almoçar e dão beijos remelados nas bochechas. A única herança que me deixas é o vício pelas bolachas. Em todas as visitas ias à despensa e oferecias-me um pacote, às vezes às escondidas dos meus pais, que se zangavam por eu perder o apetite. Até ao último dia andaste com bolachas no avental, afirmando sempre que não era por comê-las todo o dia que estavas mais gorda.
Hoje desapareceste e deixas húmidos os olhos do meu pai. Nunca os tinha visto assim. E, por ele, ficam tristes os meus também.
A Morte Chega Cedo

A morte chega cedo,
Pois breve é toda vida
O instante é o arremedo
De uma coisa perdida.

O amor foi começado,
O ideal não acabou,
E quem tenha alcançado
Não sabe o que alcançou.

E tudo isto a morte
Risca por não estar certo
No caderno da sorte
Que Deus deixou aberto.

Fernando Pessoa, in 'Cancioneiro'


segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Sim, eu tenho veneno dentro de mim




Socializar com ou sem filhos?

Ao combinar um jantar de Natal com amigos, colegas e conhecidos, alguém diz: "Ei, vão criancinhas? Não me digam uma coisa dessas". Entre outras barbaridades que para aqui não são chamadas, a pessoa alegava a bons pulmões que jantares com filhos eram uma seca e corriam sempre mal. Pouco me importa a opinião dessa pessoa e, depois de ouvir esta, muito menos, seja qual for o assunto. O que me traz aqui a esta hora é a questão: socializar com filhos ou sem filhos?
Eu gosto de estar com adultos. E gosto de estar com a minha filha. Gosto de estar só com adultos, gosto de estar só com a minha filha e gosto de juntar todos. Para mim, não faz qualquer sentido desmarcar-se um jantar só porque a avó afinal não pode ficar com a menina ou o menino naquela noite. Porque não trazes os teus filhos? Já fiz esta pergunta uma mão cheia de vezes. Até parece que as crianças são umas selvagens e completamente anti-sociais. As crianças são o reflexo da sua educação e o espelho do próprio comportamento dos pais. Não estou a dizer que não seja bom para os pais terem o seu momento, longe disso, mas esta forma de socializar que se instalou, tal clube do Bolinha, criança não entra, faz-me confusão.
Com família angolana, a minha filha está mais do que habituada a dormir em sofás alheios com casacos a tapar o frio, a dançar até às 3h da manhã, às vezes com amigos dos pais e dos avós já com um copo a mais, que a rodopiam pela sala, numa brincadeira saudável e que lhe arranca gargalhadas felizes. Porque a cultura da nossa família não exclui as crianças como se fossem ratos indesejáveis, por outro lado, inclui-as nas conversas e nas horas de lazer. A minha filha vai ao teatro, vai a concertos, vai onde eu tenho a possibilidade de a levar, porque ela não é uma coisa bonita para mostrar e depois mandar dormir. Estou a formar uma cidadã que só irá crescer socializando e, sim, socializando também com adultos.
Ah, e claro que a pessoas que despertou a minha cólera não tem filhos.    
Boa me...da.

Boa, professor Marcelo


sexta-feira, 9 de novembro de 2012

A Bolachas também quer falar sobre a Isabel Jonet

Confesso que estou confusa, o que, convenhamos, raramente me acontece. Se, por um lado, concordo com isto - Como Isabel Jonet não é uma oradora talentosa nem tem um discurso cívico consistente, a coisa descambou para um conjunto de banalidades moralistas, pensava eu que inócuas, como por exemplo a condenação de idas a «concertos rock» e o facto de os seus filhos lavarem os dentes com a água a correr (bem como alguma coisa sobre Nestum - trazida ao debate por Ana Lourenço - que eu não percebi). O que se passou a seguir é para mim inexplicável. Caiu o Carmo e a Trindade sobre Isabel Jonet, e os acéfalos do costume lançaram-se em campanhas virtuais de «boicote» ao Banco Alimentar. Sim, porque Isabel Jonet é a presidente de uma das instituições que mais tem feito pelo auxílio dos pobres. - a verdade é que também concordo com isto - O Banco Alimentar é uma instituição louvável, sem dúvida. Mas se quem dá a cara por ela é alguém que considera não haver miséria em Portugal, que compara a pobreza das famílias portugueses aos maus hábitos dos seus filhos, alguém que repetiu uma vez mais o insulto de que os "portugueses andaram a viver acima das suas possibilidades", alguém que fala dos pobres como fala, então o Banco Alimentar precisa rapidamente de arranjar outra pessoa para aparecer em público.
Trocando por miúdos, não podemos ter memória de peixe e esquecer o trabalho desenvolvido pelo Banco Alimentar e pela sua presidente ao longo dos últimos anos, mas, também, se uma das mais relevantes instituições portuguesas tem como representante alguém que diz e pensa barbaridades em relação à situação vivida em Portugal, então essa pessoa tem de sair.