O dia deu em chuvoso.
A manhã, contudo, esteve bastante azul.
O dia deu em chuvoso.
Desde manhã eu estava um pouco triste.
Antecipação! Tristeza? Coisa nenhuma?
Não sei: já ao acordar estava triste.
O dia deu em chuvoso.
Bem sei, a penumbra da chuva é elegante.
Bem sei: o sol oprime, por ser tão ordinário, um elegante.
Bem sei: ser susceptível às mudanças de luz não é elegante.
Mas quem disse ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante?
Dêem-me o céu azul e o sol visível.
Névoa, chuvas, escuros — isso tenho eu em mim.
Hoje quero só sossego.
Até amaria o lar, desde que o não tivesse.
Chego a ter sono de vontade de ter sossego.
Não exageremos!
Tenho efetivamente sono, sem explicação.
O dia deu em chuvoso.
Carinhos? Afetos? São memórias...
É preciso ser-se criança para os ter...
Minha madrugada perdida, meu céu azul verdadeiro!
O dia deu em chuvoso.
Boca bonita da filha do caseiro,
Polpa de fruta de um coração por comer...
Quando foi isso? Não sei...
No azul da manhã...
O dia deu em chuvoso.
Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa
"Não sou nada. Nunca serei nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo". Fernando Pessoa
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
Não que vocês queiram saber disto para nada (pára Bolachas, os senhores não têm culpa), mas eu tenho mesmo bom feitio (não se está a notar nada Bolachas). Quando há discussões, zangas ou o caralho, sou sempre a boa da fita. Quando é com os outros vou lá pôr paninhos quentes, quando é comigo sou sempre eu a pedir desculpa, a fazer as pazes, mesmo quando a outra pessoa está a ser completamente imbecil (agora só tens o teu marido a ler Bolachas, todos os outros já estão noutros blogs). Estou sempre bem disposta. Ninguém tem que levar com a minha tensão pré-menstrual, saber se me zanguei com a filha, os pais ou o escambal. Mas detesto quando confundem o meu bom feitio com uma certa loirice (pronto, agora é que estragaste tudo) ou com um caga em mim que eu deixo. Está certo, a responsabilidade é minha. No cabeleireiro fazem-me a porcaria de um penteado todo mal amanhado, simpaticamente digo a medo ai, dona cabeleireira, acho que atrás não está muito bem, parece-me amarfanhado, eheheheh. E ela solta um Bolachas, depois de vestida e maquilhada vai ver que acha que está tudo bem. E lá venho eu com a porcaria do cabelo todo fodido, chego a casa e desfaço aquela trampa e faço sozinha. Cagada das grandes porque se tivesse que ser cabeleireira morria à fome. Na esteticista digo eu gosto das sobrancelhas a direito, não gosto daquelas com uma curva acentuada, por favor tire-me só o excesso. A menina acaba de depilar, mostra-me um espelho e diz-me as suas sobrancelhas não tinham formato nenhum, estavam a direito, por isso fiz-lhe esta curvinha. Gosta? E o que aconteceu? Ah, estão muito bonitas, obrigada. O que queriam que dissesse? As putas das sobrancelhas já estavam arrancadas. Estou farta deste meu bom feitio e, como podem constatar se tiveram pachorra e coragem para ler este post até ao fim, estou a mudar.
Daquilo de nos importarmos um bocado, pá
Ao ver um dos separadores da Sic Notícias, aquele da senhora do 5 de Outubro, eu e o meu novo colega de trabalho tivemos o seguinte diálogo:
colega novo: O que é isto?
eu: É a senhora do 5 de Outubro.
colega novo: Mas é alguma performance teatral?
eu: Não, a senhora foi protestar.
colega novo: Fónix, um bocado dramática.
eu, já a fumegar: Hum, talvez a senhora e a sua família estejam a passar por dificuldades na sua vida à conta das medidas do governo e, não sei, talvez esteja a desesperar por quase não ter como se sustentar, estou só a arriscar uma hipótese.
Acrescento que o meu colega tem 32 anos. Enquanto não nos importarmos com esta merda, não estivermos informados para, pelo menos, na hora de votar o fazermos conscientemente, enquanto continuarmos nesta passividade de pensamento, a fingirmos que ainda somos uns adolescentes irreverentes, a mandar postas de pescada sem ver nada, ouvir nada, ler nada, reclamarmos no café sobre a arbitragem que fez o benfica perder outra vez, então estamos a assinar por baixo a certidão de óbito que este governo quer dar ao nosso país. Pelo menos, é o meu país e daqui não quero sair.
colega novo: O que é isto?
eu: É a senhora do 5 de Outubro.
colega novo: Mas é alguma performance teatral?
eu: Não, a senhora foi protestar.
colega novo: Fónix, um bocado dramática.
eu, já a fumegar: Hum, talvez a senhora e a sua família estejam a passar por dificuldades na sua vida à conta das medidas do governo e, não sei, talvez esteja a desesperar por quase não ter como se sustentar, estou só a arriscar uma hipótese.
Acrescento que o meu colega tem 32 anos. Enquanto não nos importarmos com esta merda, não estivermos informados para, pelo menos, na hora de votar o fazermos conscientemente, enquanto continuarmos nesta passividade de pensamento, a fingirmos que ainda somos uns adolescentes irreverentes, a mandar postas de pescada sem ver nada, ouvir nada, ler nada, reclamarmos no café sobre a arbitragem que fez o benfica perder outra vez, então estamos a assinar por baixo a certidão de óbito que este governo quer dar ao nosso país. Pelo menos, é o meu país e daqui não quero sair.
terça-feira, 23 de outubro de 2012
Revolução
Como casa limpa
Como chão varrido
Como porta aberta
Como puro início
Como tempo novo
Sem mancha nem vício
Como a voz do mar
Interior de um povo
Como página em branco
Onde o poema emerge
Como arquitectura
Do homem que ergue
Sua habitação
Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas"
Como chão varrido
Como porta aberta
Como puro início
Como tempo novo
Sem mancha nem vício
Como a voz do mar
Interior de um povo
Como página em branco
Onde o poema emerge
Como arquitectura
Do homem que ergue
Sua habitação
Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas"
segunda-feira, 22 de outubro de 2012
É isso aí
A festa do meu casamento correu mal. Mas, no sábado, no meio do casamento da minha amiga, finalmente apercebi-me que isso não tem qualquer importância.
Estava a tocar esta música.
Nunca gostei desta música. Sempre que toca na rádio mudo de estação. Mas, lá estava ela. Os convidados estavam todos sentados, os noivos tinham acabado de cortar o bolo e os empregados estavam a distribuí-lo. No meio daquela azáfama, ele puxa-me para dançar e enquanto estamos abraçados, embalados, sozinhos na pista, rimo-nos do dj que alterna Emanuel com ACDC e do primo bêbado que iria acabar com a festa. Estamos assim, a dançar em frente a todos como se estivessemos só nós e eu estou tão feliz como a noiva. Afinal, foi só a minha festa que correu mal. O casamento corre bem todos os dias. É isso aí.
Estava a tocar esta música.
Nunca gostei desta música. Sempre que toca na rádio mudo de estação. Mas, lá estava ela. Os convidados estavam todos sentados, os noivos tinham acabado de cortar o bolo e os empregados estavam a distribuí-lo. No meio daquela azáfama, ele puxa-me para dançar e enquanto estamos abraçados, embalados, sozinhos na pista, rimo-nos do dj que alterna Emanuel com ACDC e do primo bêbado que iria acabar com a festa. Estamos assim, a dançar em frente a todos como se estivessemos só nós e eu estou tão feliz como a noiva. Afinal, foi só a minha festa que correu mal. O casamento corre bem todos os dias. É isso aí.
Para onde vais, Bolachas?
Vou para a festa!
De onde vens, Bolachas?
Venho da festaaaaaiiiiiii a minha cabeça. Falem baixo, se faz favor.
De onde vens, Bolachas?
Venho da festaaaaaiiiiiii a minha cabeça. Falem baixo, se faz favor.
sábado, 20 de outubro de 2012
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