sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Amanhã há festa da grossa

Amanhã é dia de casório. As senhoras vão ao cabeleireiro, pintam os olhos, as unhas e os lábios, colocam os seus sapatos altos. Preocupam-se durante meses com a roupa que vão vestir mas, na hora da verdade, em 95% dos casos, todos as convidadas estão mais feias do que no dia-a-dia. Os senhores vão lavar os carros, mesmo com a chuva que está, e escolhem a gravata cor-de-rosa que está guardada há anos. As senhoras enterram os saltos na relva molhada enquanto comem croquetes e comentam o vestido da noiva e da mãe da noiva. Os senhores vão directamente ao bar, fazendo graçolas sobre o facto de ser aberto. Os noivos vão cumprimentando toda a gente, distribuindo beijos e ouvindo felicidades. Estão cheios de fome, os rojões já passaram três vezes mas, de cada vez que esticam um braço para lhes pegar, aí vem mais uma beijoca. Os convidados verificam onde vão ficar sentados e reclamam porque vão ter de aturar aquela tia maluca, todos se sentam e os noivos entram ao som de uma balada que, muitas vezes, nada tem de romântica. Palmas, palmas, palmas. Vem o bacalhau com broa, o cabrito assado, a sobremesa e o café. O bolo é partido ao som de outra música espectacular e de foguetes. Segue-se o baile. Apita o comboio, o pai da criança, o ritmo do amor, eu tenho dois amores. Por esta altura, já as senhoras calçaram os chinelos e os senhores estão com a gravata cor-de-rosa na cabeça. As crianças já se fartaram do palhaço que não tem graça nenhuma e estão a dormir nas cadeiras. A noiva está descalça, o cabelo em pantanas e o rímel borratado. O noivo canta karaoke com os amigos com uma valente bebedeira.
O mais caricato disto tudo? É que adoro ir a casamentos.    

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Vá lá, inspirem-se

Bolachas, a salvar casamentos desde Julho de 2012.

A falta de linguados

Estive a fazer uma reflexão profunda e cheguei à conclusão que o problema da maioria dos casamentos é a falta de linguados. Os primeiros meses de namoro são fartos nesse campo. Uma boca nova e uma língua por descobrir fazem os recém-apaixonados atracarem-se a toda a hora. Lava-se os dentes dez vezes por dia, masca-se chicletes, não se come cebola nem alho. Com o casamento e a partilha da casa, não faz qualquer sentido um cônjuge sair da sala para soltar gases, por exemplo. Ainda por cima, a Oprah diz que é normal soltar-se 16 por dia. Ora, num domingo, quando a maior parte dos casais está junto as 24 horas, seria muito difícil cada um arranjar uma desculpa 16 vezes para sair da beira do outro. No total, são 32 vezes, ora um, ora outro. Seria uma grande trabalheira. Posto isto, e perante este cenário tão glamouroso, os casais tendem, também, a desleixarem-se com os linguados. O amor da nossa vida está mesmo ali ao lado, sempre, e pensamos, amanhã vou dar-lhe um valente beijo naquela boca. Mas amanhã os filhos estão sempre ali e não vamos espetar a língua na boca do cônjuge à frente deles. Quando damos por ela passaram dois ou três meses e nada de linguados. Está mal. Na minha opinião está mal. Se querem conservar os vossos casamentos, já sabem, um linguado por dia nem sabe o bem que lhe fazia.

Com a Fortuna não Perde o Ser de Besta

Na carreira veloz, a deusa cega
Lança às vezes a mão a um feio mono
E o sobe, num instante, a um coche, a um trono,
Onde a Virtude com trabalho chega.


 










Porém se, louca, num jumento pega,
Por mais que o erga não lhe dá abono:
Bem se vê que foi sonho de seu sono,
Quando a vara ou bastão ela lhe entrega.













Pouco importa adornar asno casmurro
Com jaezes reais, mantas de festa,
Se a conhecer se dá no rouco zurro.

 
Quem, no berço, por vil se manifesta,
Quem nele baixo foi, quem nace burro,
Co'a Fortuna não perde o ser de besta.


 













Francisco Joaquim Bingre, in 'Sonetos'

 

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Abraçar ou não abraçar, eis a questão

Como dizer isto? Adoro abraços. Detesto abraços. Não é bem um detestar, vá, é um desconforto físico grande, pronto. Em casa, sou a pessoa mais abraceira, e com isto acho que acabei de inventar uma palavra, mas com outras pessoas que não sejam o meu marido e a minha filha, o meu espaço não pode ser invadido até 50 centímetros. Tudo o que ultrapasse esse limite traduz-se em bochechas vermelhas e risos nervosos. Nem pais, nem sogros, nem amigos, colegas ou conhecidos. Ninguém me pode abraçar. Eu até posso gostar das pessoas, mas a minha dúvida é: onde é que se põe a cabeça durante um abraço? Ainda ontem uma amiga me abraçou. Ela é bastante mais alta que eu e lembrou-se de me dar um daqueles abraços de ladeiro, em que colocamos um braço por cima do ombro da pessoa abraçada e o outro na cabeça dessa dita pessoa. E eu fico ali, respira não respira, retribui não retribui. Rapidamente me tentei soltar, mas havia carinho naquele abraço - e todos sabemos que esses são os mais longos. No fundo, gosto da ideia de abraçar, é simpática e mais vale isso que uma pancada na cabeça, mas na realidade essa ideia parece-me muito melhor quando a penso e não quando ela é concretizada. Precisarei de terapia? 

Do ciclo da vida


As mangas têm que ser dobradas várias vezes e um cinto ajusta os vestidos à cintura da Inês. A sua mãe não gosta que remexam nas suas coisas e, muitas vezes, reprende a Inês por deixar tudo desarrumado, mas a menina com olhos de azeitona não resiste a fazer de conta com as roupas de mulher crescida. Todas as tardes de domingo, a Inês entra no quarto da mãe e abre os armários. Primeiro escolhe os sapatos, a sua peça de vestuário preferida, e depois o vestido. O próximo passo é pintar os lábios, os olhos e as unhas. A caixa de maquilhagem da mãe é um mundo de possibilidades, com todos os batons, lápis e vernizes. Em frente ao espelho, a Inês fala sozinha com amigos imaginários. Já foi professora, médica, cabeleireira, foi personagem em novelas e concorrente da Casa dos Segredos. A idade esta a avançar, mas a meninice continua intocável, pelo menos nas brincadeiras. Sonha em tornar-se uma mulher sem querer deixar de ser criança.
E a mãe enternece-se a pensar no ciclo da vida. Ainda ontem era ela a desarrumar as coisas da mãe e hoje ralha com a filha por deixar o quarto de pernas para o ar. É engraçada, a vida.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Ainda sem professor

Um mês volvido desde o início das aulas, a minha filha continua sem professor de Espanhol. Ora, sendo do conhecimento geral que há milhares de docentes no desemprego, nomeadamente desta disciplina, alguém me pode explicar porque esta situação continua a arrastar-se sem um fim no horizonte?